A CAÇA (2012) DE THOMAS VINTERBERG
- CONTÉM SPOILERS -
Vinterberg, para muitos o novo
Von Trier com uma pitada de sabedoria dramática além do esperado, aqui, conduz
a sua história de forma com que o espectador tema por Lucas e ao mesmo tempo se
questiona: “E se fosse comigo? E se fosse com meu próprio pai?” O caminho que
percorremos com o protagonista é agonizante, nos faz raciocinar sobre a maldade
do ser humano e, principalmente, sobre a tal pureza inquestionável das
crianças. Uma certa vez, ao assistir o aclamadíssimo “Precisamos falar sobre
Kevin” de Lynne Ramsay, me deparei com uma implacável declaração de Eva, mãe de
Kevin, que dizia: “Enquanto bebê, Kevin nunca parava de chorar, era como se ele
quisesse me atacar, quisesse me punir, castigar.”, tudo bem que muitos podem
dizer que poderia ser exagero de mãe de primeira viagem, entre outras coisas...
Mas não vale o questionamento?! Pois, quando querem algo, quando querem nos
fazer acreditar em algo, as crianças possuem um olhar de convencimento incomparável,
o que nos faz indagar sobre essa a pureza intacta das, muitas vezes, mentiras
desses seres tão inocentes.
Em uma narrativa lenta, com
diálogos densos, sem muita empolgação forçada, o diretor nos leva a entrar no
mundo de Lucas de forma natural. À primeira vista, um professor de jardim de
infância prestativo, divertido, amante das crianças (mas não no aspecto alegado
por Klara), um profissional digno de exemplo aos demais. No meio de um
divórcio, retomando a sua vida amorosa com uma nova paixão e com um filho que
beira a adolescência, Lucas é o tipo de homem comum, que vive em um vilarejo
comum e com um trabalho, extremamente comum. Porém, esse é o momento de
inquirir: Por que, diabos, Klara cisma com o melhor amigo de seu pai?
A análise pode ir muito além, é
um filme de Thomas Vinterberg, este diretor sempre trata de assuntos polêmicos,
psicológicos e bem diversos. Mas, poderíamos começar a pensar a respeito da
influência de vida da garota, já que possui um irmão alguns anos mais velho, que,
como percebemos em uma das cenas, está vivenciando a puberdade, aquele momento
em que os meninos se afundam na curiosidade e buscam, entre outras coisas, a
pornografia. Existe um momento crucial onde o irmão, ao lado de um amigo,
mostra a menina, uma cena de sexo em um tablet, como pode se aferir. Será que
esse não é um detalhe essencial para notarmos de onde Klara poderia ter buscado
a descrição do ocorrido entre ela e o professor Lucas? Este que, como
percebemos durante o primeiro ato do filme, nunca se aproxima de seus alunos de
forma inadequada.
Podemos perceber, também, que em
um certo momento, após toda a confusão e acusação ser posta a tona, a menina
tenta desmentir o fato, tenta contar a sua mãe que aquilo não passou de sua
imaginação fértil e que Lucas era, de fato, um bom amigo e professor. Mas, aí,
temos que colocar em pauta: “Por que bulhufas alguém acreditaria nela
agora???”. Sabemos bem que a pedofilia é uma realidade – triste realidade - e
que, muitas vezes, as crianças, por medo, tentam desconversar, contar outra
história, desistir da versão original. Então, é crível, neste momento, que
Klara só está tentando “acabar” com tudo aquilo, embora tenha sofrido todo o
dano físico e psicológico (esta, obviamente, a opinião de seus pais e envolvidos
ao ouvir a sua segunda versão).
Neste longa, podemos sentir a
tensão que a mentira nos proporciona, como uma amizade de infância se acaba em
segundos, como um “homem do bem” se
transforma em um monstro após uma pequena frase proferida por uma criança.
Gostaria de ressaltar a grande atuação de Mads Mikkelsen, o famoso Hannibal
Lecter da TV, que aqui nos mostra que seu potencial vai muito além de certos
trocadilhos e frases prontas. Bem como, o ator dinamarquês Thomas Bo Larsen,
que interpreta Theo, o pai de Klara e melhor amigo de Lucas, que dá uma
verdadeira aula de atuação na cena em que “perdoa” o seu melhor amigo.
Por fim, devemos estar atentos ao
final do filme, no qual nos deixa uma pista imersa sobre o futuro de Lucas.
Apesar de todos os acontecimentos e de seus perdões posteriores, será que algum
dia o protagonista voltaria a ter sua vida pacata, em seu vilarejo comum, com
seus hobbies costumeiros? Na minha humilde análise a resposta é um ensurdecedor
“NÃO!”, e o tiro que bate na árvore ao seu lado (que poderia e deveria ter o acertado)
é a prova disso. Ninguém jamais o perdoou verdadeiramente e, provavelmente,
ninguém irá. A verdade é um segredo que viverá somente com Lucas e Klara pelo
resto de suas vidas.
NOTA: 8,5
(Obviamente, gostaria de inserir
que essa história vai além do caso principal que trata sobre a suposta
pedofilia do protagonista, trata-se evidentemente sobre a mentira e como essa
pequena traiçoeira pode acabar com a vida de um ser humano. A história
evidentemente é atípica, embora, sim, as crianças mentem, mas nesse aspecto
tratado no longa, especificamente, o que mais ocorre é o pedófilo, que de fato
comete essa atrocidade, sair como o tal “homem do bem” e a criança e sua
família, como pessoas desequilibradas e desnorteadas da realidade.)
A coluna “Mais Cinema” busca
agregar novos pontos de vista e teorias acerca de filmes polêmicos, complexos,
superestimados ou subestimados e estigmatizados pela mídia ou seus próprios
fãs. Bem como, aprofundar em atores e atrizes, diretores e diretoras, que mexem
com o seu subconsciente devido tremendo talento em suas respectivas profissões.
Convido a você que, como eu, possui uma mente inquieta e que sente a
necessidade, após assistir a algum filme que aprecie, de ler/falar/ouvir sobre
o mesmo sem parar.
Esse texto foi escrito por: Ana Carolina Teles



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