Alguns filmes são esperados
por uma legião de fãs sedentos pelo retorno de queridos personagens. Outros
levam a assinatura de um diretor consagrado, gerando a expectativa de outra
obra excepcional. Talvez o elenco movimente outra leva para as salas de cinema.
Há outro perfil, no entanto, que pessoalmente considero o mais especial: o
desconhecido. The Lobster (2015) vende como pôster principal uma imagem no
mínimo intrigante; um homem abraça uma silhueta de cor branca que se mistura ao
fundo, dando a impressão de que lhe falta um pedaço com a ausência da figura
que preencheria esse vazio.
O mistério, que inclusive
circunda o título da obra (afinal, o que seria a tal lagosta?) é sanado com as
breves palavras descritivas encontradas na sinopse. Em um futuro regido pela obrigação de se ter
um companheiro, o insucesso de tal proeza após 45 dias hospedado em um hotel
com diversos outros solteiros, resulta na transformação do homem, ser racional
pensante, em um animal selvagem condenado a viver como tal. David, personagem
interpretado por Colin Farrell, declara logo nos minutos inicias do filme,
após ser abandonado pela esposa e encaminhado ao hotel, querer ser transformado
em uma lagosta.
As informações processadas em minha mente até então diziam-me que a transformação em animal deveria ser interpretada como uma metáfora. Talvez uma lobotomia tirasse do ser humano o peso de ser condenado a viver sozinho de sua consciência. No entanto, chegando ao hotel, David informa na recepção que seu cachorro é na verdade o irmão, que há certo tempo falhou na missão de estabelecer-se como companheiro de outrem. A transformação deve ser encarada de forma literal.
Mas nem tudo está perdido.
Todos os dias os hóspedes são munidos com 20 dardos tranqüilizantes e enviados
à floresta em uma caçada, onde cada presa acrescenta um dia aos 45 iniciais da
lei. Os interessantes alvos são desertores que optaram por viver sob suas
próprias leis no mundo selvagem, ainda em sua forma humana, alimentam-se dos
que falharam e não desistiram a tempo.
O parágrafo anterior passa a impressão de que o desespero por associar-se, respeitando a obrigatoriedade, é constante, o que pode ser confirmado pelas constantes dissimulações e armações para parecer compatível com alguém de interesse. Um colega de David, ilustrando tal fato, fere-se gravemente a ponto de seu nariz sangrar apenas para ter algo em comum com a menina de seus olhos com tal problema natural. Palestras diárias ministradas no saguão do hotel justificam a lei em encenações de como se pode ser salvo de um engasgamento ao comer na companhia de alguém, fazendo da lei existe uma medida de proteção ao indivíduo.
Optei por descrever com
detalhes o primeiro ato do filme por ter me encantado com o bizarro assumido na
história. No entanto, mais surpresas se escondem quando um acontecimento tira
David de sua zona de conforto e o força para fora do sistema, trazendo na
mudança de ambientes cenas ainda mais ásperas. A experiência visual, por ser
uma história com diálogos assumindo papel secundário, é rica e exige uma
digestão cuidadosa quando a tela escurece, pois o final de certa forma aberto
oferece margens para interpretações variadas sobre o destino final da jornada.
Talvez The Lobster não seja para o paladar de todos os espectadores, porém sua significação pensada para o contexto de vida de tais é clara. Quantas informações inverídicas constam nas redes sociais, a fim de impressionar potenciais companheiros? Quanta pressão social sofre o solteiro para se relacionar e formar uma família antes das três décadas de vida? O vazio da silhueta pode ser hoje preenchido com carreiras e solidão escolhida, mas isso não nos torna necessariamente selvagens.
Ainda
somos humanos.
Esse texto foi escrito por: Jaqueline Buss
Assista ao trailer do filme:




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