SPOILERS ABAIXO
Do meu universo de séries, nenhuma se pauta e se
posiciona tanto na realidade quanto Mr. Robot. Mr. Robot reflete como a humanidade pós-moderna
relaciona-se com tecnologias, sinaliza o estado de alienação em que estamos ao mostrar que vivemos nos simulacros e simulações que nos fala Jean Baudrillard, questiona
nossa naturalização à estas tecnologias, o quanto as absorvemos e como elas nos
transformam, se tornando verdadeiras extensões de nossos corpos.
E o oitavo episódio foi, se resumido em uma
palavra, orgástico. Usando um cliché, foi um divisor de águas: é possível
definir um antes e depois na série. Foi aquele tipo de episódio que tu gritas
"PQP, QUE EPISÓDIO AFUDÊ, NÃO PODE SER, CARAAAAAAALHO!". De ficar de
boca aberta mesmo.
No nosso "convívio" com o Elliot, seus
problemas mentais e sua dissociação de identidade eram fatos claros, além de parte
fundamental no decorrer da história da série. Ele tem consciência que nós, seu
amigo imaginário, somos uma criação dele, e não apenas por isso, mas por seu constante debate interno, recheado de fatalismo, pessimismo e niilismo,
acabamos simpatizando com ele. Como a série é do ponto de vista dele, o que
acontece não é 100% confiável, ou seja, não há como saber se realmente
aconteceu ou se é algo que ele imaginou. Isto a princípio eram em pequenos
detalhes, que não tinham grande impacto, porém, o que foi feito no oitavo foi
brilhante e corajoso, culminou em um dos maiores e melhores plot twists que vi
em anos: revelações sobre a identidade de Mr. Robot.
À época, umas das teorias, tal como Clube da Luta,
revelaria que Mr. Robot e Elliot seriam duas partes de uma mesma pessoa. Já se
perderia o ineditismo, mas mesmo assim, seria crível, porém, a série nos trouxe
outra realidade, ainda mais insana, em uma cena aparentemente banal, começam cair
queixos e os orgasmos começam.
Orgasmo 01 -
o que antes parecia ser um comportamento peculiar, um tanto quanto
desagradável de Darlene depois se mostra perfeitamente razoável. O
comportamento até então bizarro de Darlene fez todo o sentido com esta primeira
revelação. A revelação de que Darlene na verdade é irmã de
Elliot, se seguisse a direção das telenovelas brasileiras, teria uma carga
melodramática que beiraria a overdose de açúcar, repletas de lágrimas e
abraços, mas não, não foi longa nem exagerada, mas sim extremamente densa. Foi
visceral: a angústia, a repulsa, o horror, a confusão, o choque e a preocupação
tanto de Darlene quanto de Elliot foram interpretados à perfeição.
Orgasmo 02 - Em uma foto de Elliot criança, o
indivíduo que conhecemos (até então) como Mr. Robot é parecido (até idêntico)
ao supostamente falecido pai de Elliot.
Orgasmo 03 - Não é uma cena em si, mas a
consequência: tudo isto foi mindblowing, porque te faz questionar TUDO na
série: o que é real, o que é fantasia, quem existe, quem é inventado, etc.
Em pequenos detalhes, a série se desconstrói e se
reconstrói: tudo faz sentido e o que fazia sentido, não faz mais tanto. Foi um episódio que responde tanto quanto pergunta:
Elliot alucinava com seu pai sendo Mr. Robot? Por que ele o esqueceu? Por que ele o recriou sob a identidade de um hacker? Aquele é
realmente o pai dele? Se não é o pai, quem é? Isso adicionaria toda uma camada
extra de loucura, que nos episódios seguintes se delineou de forma magistral.
Esse texto foi escrito por: Roberta Brum


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