A série da ABC é uma comédia criada por David
Windsor e Casey Johnson, e tem Dan Savage
como produtor-executivo (e já já você vai entender a importância dessa
informação). É um sitcom clássico, divertido, com a proposta de discutir
o perfil das famílias irlandesas católicas tradicionais.
Aí que mora o perigo. Após o anúncio de que a
produção entraria na grade da emissora, grupos religiosos e
organizações “pró-família”, como a American Family Association, começaram
suas campanhas de boicote contra o programa. Informações do Centro de Pesquisa
de Mídia dos Estados Unidos contam que mais de 21 mil cartas foram enviadas e 4
mil ligações telefônicas feitas para forçar o cancelamento da produção, além de, uma petição online que já ultrapassa 22 mil solicitações (22.805 para ser exato
até minha última visita ao site). Algum choque até aqui? Não mesmo, afinal, é
de se esperar que a família tradicional não aceite ser desconstruída.
Tudo isso porque acreditam que a série é uma
autobiografia de Dan Savage, que já disse se tratar de um erro de
interpretação, pois não é ele quem escreve. Chamam Dan de um dos mais cruéis
ativistas políticos da América, tudo isso, por achar que ele é um radical
anticristão. Clima bem pesado sobre a ABC que não recuou e manteve a série, que
conseguiu sair do papel e já encaminhou sua primeira temporada, e ainda dizem
que o problema com Savage não é por ser gay e sim por ser ativista político
contra a igreja, mas está bem claro a história do “não sou preconceituoso,
tenho até amigos que são gays”.
Alguns elementos do piloto foram baseados na
infância do produtor, mas como ele mesmo disse em entrevista, a série “tem
evoluído ao longo do processo de desenvolvimento e que não seria exato
descrevê-la como autobiográfica”. Assim dá pra ver que aqui é mais um caso da
igreja tentando impedir outra forma de retratar algumas convicções na ficção.
Pelo que já assisti do show, com certeza identifico pontos iguais do que vivia
enquanto era membro de uma igreja católica aqui mesmo no Brasil, que tem ideias
mais “brandas” (ainda tenho minhas convicções religiosas, mas não me encaixava
por estar pecando em ser gay). E daí você entende a radicalidade das religiões
de não aceitação do “pecado” em seu meio. Pecado esse que está intrínseco em
todos os personagens da série em várias formas.
E não é apenas uma questão de ferir o direito das
tradições. Longe disso. O que nos preocupa é a sensação de que nada pode ser
modificado, e que tudo já instaurado deve continuar pelo bem da família, mas, e se essa família for falida? Ninguém se conhece, ao menos nem sabe os
problemas de seus entes queridos, por simples pressão de não poder contar com o
apoio dos familiares para lidar com algumas situações. Oprimidos para se
encaixar num sistema de sociedade que religiosamente dita as regras. E não
tenho nada contra religiões também, não confundam, mas nós sabemos o quanto
algumas crenças estão perturbando a ordem, ou você é da minha religião ou você
está errado, intolerância é o termo concreto.
Em alguns lugares você encontra a descrição do show
de que “a família perfeita cai por terra após o filho mais novo assumir-se
gay”. Este personagem é Kenny O’Neal, interpretado por Noah Galvin – não tão
conhecido ainda. Ora, entendemos que Kenny é um dos protagonistas, mas o que
incomoda aqui é que isso seja o motivo de a família O’Neal mudar sua vida,
culpando a homossexualidade do filho como o problema de tudo começar a “virar
de cabeça pra baixo”. O mote é claro: a partir da sua vontade de assumir-se
perante a família é que todos revelam seus problemas, e aí você percebe que não
é ser gay a causa da ruína, e sim um conjunto de fatores. Toda a família tinha
algo que precisava tirar do armário.
A mãe católica fervorosa, controladora e, digamos,
ditadora das morais religiosas da família, esconde de todos o seu divórcio com
o pai desatento. Eileen O'Neal, interpretada pela incrível Martha Plimpton
(participações em The Good Wife e Raising Hope), tenta de todas as formas
manter em segredo que o casamento terminou. Tudo porque uma mulher divorciada
não teria a mesma aceitação perante os membros da igreja que, como percebemos a
partir do piloto da série, tem um padrão a seguir; pai, mãe e filhos. O
pensamento de que como mulher divorciada não será mais aceita por ser uma
pecadora, afinal, ela deve lutar pelo seu casamento e não desistir do marido –
mesmo que a vida seja horrorosa. A vontade aqui é que a pessoa precise superar
isso.
Não há espaço para ela, então, com a astúcia de uma personagem
controladora, começa a dormir separada do marido, Pat O’Neal, vivido pelo ator Jay R. Ferguson (Mad Men), que vai morar no porão,
mantendo as aparências de casal. Pat é o personagem mais apagado da série. Não
é sua culpa, e sim das outras personalidades que o rodeiam. A gente até
consegue rir um pouco das situações em que o pai policial se enquadra, mas não
chega a destoar nesse emaranhado de pessoas problemáticas, ele é apenas o pai,
totalmente controlado pelas vontades fervorosas de Eileen.
Do trio de filhos vem o bobão Jimmy (Matt Shively – algumas
aparições em filmes e séries como True Jackson), que é um atleta de luta
greco-romana e sofre de “bulimia masculina”. Não podemos negar que as entradas
dele nas cenas são sempre um ponto para dar risadas. Os diálogos envolvem
alguma frase com pensamentos idiotas, típico do que estamos acostumados nos
atletas de séries por aí. Ainda esperamos ver mais desse transtorno da
alimentação dele, que ficou de lado após o piloto, dando brecha para outras
ideias. Exímio defensor do irmão gay, acaba sempre conseguindo causar bastante
problema quando tenta proteger a honra do irmão e o mais legal aqui é perceber
que a convivência dos dois é bem próxima – até mesmo quando ambos conversam
sobre a preferência de Kenny por garotos. Jimmy é o mais ligado com esse assunto
gay do irmão.
É uma questão de inocência, apesar de ser o mais velho, Jimmy não vê
problemas na sexualidade de Kenny, enquanto a mãe, que se preocupa com a
aparência da família para a sociedade, quer esconder e em certo ponto reverter esse
caso. Quantos de nós, gays, já não tivemos que esconder o que somos para não
chamar atenção, para não virar conversa da rua ou dos parentes? Mesmo com a
comédia implícita nas situações em que Kenny é submetido, podemos parar pra
pensar nos outros jovens que não têm a mesma oportunidade de discutir
abertamente com a família sobre sua orientação sexual. E quem não lembra do
caso do garoto que foi assassinado pelo próprio pai por ser “afeminado”? Por
não se encaixar no padrão “macho” que o homem deve ter, uma criança morreu, o que reforça ainda mais meu pensamento sobre até quando um padrão deve ser
mantido.
Das mulheres da casa temos Shannon O’Neal (The New Normal), a filha que
segue um pouco da tendência manipuladora da mãe, só que para o mal. Ela é
cínica e nós gostamos disso. Está bem ligada no fato da adolescente que está
duvidando de tudo – inclusive da existência de Deus, o que é um ultraje para
uma família católica tradicional.
Essa é a combinação que rodeia o enredo de The Real O’Neals. Um casal no
divórcio, o filho gay, o atleta estúpido e a filha questionadora dotada de um
humor negro sem limites. Esteriótipos simples que juntos conseguem te fazer
rir. No entanto, você não vai ficar sem ar de tanto rir, nesse caso, os diálogos vão te
pegar e fazer com que entre na dança até o fim do episódio, preso no enredo de
confusões que vem pela frente. Parece Sessão
Tarde, e é! Mas sabe aquele filme bom que você assiste outra vez? Tem seus
erros, seus acertos, suas boas sacadas e bate sobre todas as teclas possíveis
do hábito cristão.
Por isso nós temos que assistir. Porque se incomodou fanáticos
religiosos que acharam uma ofensa radical de ativismo político, é então que
percebemos algo certo. Não devemos assistir por rebeldia, mas para entender que
nem todas as famílias precisam ser nesse modelo quadrado, cinza e grotesco
pregado por muitos. Se for, que sejam felizes. Se não, também sejam. O
importante é não deixar que a sua família seja uma farsa só para se enquadrar.
Não importa se heterossexual, gay ou afins. Não há modelo para seguir, a não ser
que envolva cumplicidade, união e afeto.
Você é real?
Esse texto foi escrito por: Victor Oliveira
Assista a promo da série:





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