Entender o peso que um filme
da década de 1960 pode ter nos dias de hoje é simples, bastando refletir sobre
quanto a tecnologia tem facilitado nossas vidas e nos presenteado com o acesso
instantâneo à informação. Retrocedamos ainda algumas décadas, onde corpulentas
enciclopédias traziam uma coleção de conhecimentos em diversas áreas e os
livros, hoje em parte digitais, ocupavam lugar nas prateleiras empoeiradas que
davam ao ambiente um cheiro característico de sabedoria pairando no ar. Parece
difícil de conceber uma vida sem leituras, interpretações ou conclusões
próprias, mas esse é o mundo de Fahrenheit 451.
As experiências ditatoriais
em algumas sociedades, como o caso do Brasil no século passado, restringiam o que
adentrava as casas e mentes da população, conversando com consagradas obras
como 1984, de George Orwell, onde as teletelas deixavam o Partido do Grande
Irmão ciente de cada conversa suspeita. Em Fahrenheit 451, de forma semelhante,
a televisão tem a função de adestrar os cidadãos, implantando neles a vontade
de consumir e a satisfação em fazer parte do sistema. A ignorância os faz
felizes e satisfeitos.
A obra de François Truffaut, adaptada de um
livro homônimo de 1953, tem ainda uma singularidade no mínimo interessante: a
função do corpo de bombeiros. Em uma realidade em que as casas são à prova de
fogo, os profissionais são acionados para queimar obras literárias encontradas
nas residências. A lei é clara na proibição de qualquer tipo de literatura,
pois até mesmo a mais aparentemente inofensiva delas pode implantar idéias
perigosas à soberania do governo. Com isso em mente, é fácil deduzir que as
redes de delações são estruturadas, motivadas pelo dever de cumprir a lei, pelo
medo de se ver envolvido ou mesmo por desavenças entre vizinhos.
Após as considerações
técnicas feitas até aqui o leitor está apto a avançar pela história
propriamente dita. Guy Montag (Oskar
Werner) é um bombeiro exemplar, almejando uma promoção em breve. Após ser
questionado se não havia nele a curiosidade em ler pelo menos um dos livros que
queimava, e presenciar um ato de verdadeiro amor por esses objetos subversivos,
sua perspectiva muda, tornando-o um apaixonado por literatura. Começando aos poucos,
longe dos olhos da lei e da esposa, Montag logo se vê completamente imerso num
universo que não o permite voltar. Está mudado.
Inicia-se assim uma jornada
de libertação do personagem, tendo como plano de fundo situações igualmente
interessantes. Linda (Julie Christie), sua esposa, é colocada em cena com a intenção, muito
bem sucedida inclusive, de contrariar o desespero de Montag, pois interage
obedientemente com a televisão e reúne-se para um despretensioso lanche com as
amiga, sendo o exemplo social a ser seguido. Somando-se à Linda, as
autoridades, ilustradas inclusive por seus colegas de trabalho, representam o
principal antagonista em cena, afinal quem sai dos trilhos nesse futuro
hipotético não pode acabar bem.
Uma terceira figura merece
ser mencionada, Clarisse, pois é ela que apresenta Montag ao incrível desfecho,
que combina perfeitamente com a mensagem que a obra se propõe a passar. Ela
rega a semente plantada no atormentado bombeiro, sendo desleal de minha parte
mostrar a planta desabrochada. Asseguro, entretanto, que o final é digno de
elogios e tem uma mensagem importante. Guy “morre”, porém continua vivo, e esse
mistério, juntamente ao porque do nome Fahrenheit 451, deixo ao leitor o fardo
de desvendar.
Esse texto foi escrito por: Jaqueline Buss
Assista ao trailer do filme:



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