Confesso que foi um pouco difícil escrever sobre “Coraline”,
obra do inglês mais maravilhoso da atualidade, Neil Gaiman. Não é nem de longe
por conta do texto, obviamente não. Creio que o caso é a natureza
extraordinária da obra.
Quando comecei a leitura, achei que se tratava de
literatura fantástica, afinal de contas começamos a história de maneira
bastante comum: Coraline é uma garotinha solitária com pais, apesar de amorosos,
sempre ocupados com o trabalho. Sobra para a pobre garotinha visitar seus
vizinhos: duas idosas que moram juntas e um idoso que treina ratos para uma
apresentação artística. Como sempre Gaiman nos ganha na maravilha que é a narrativa
pelos olhos de Coraline. Por todo o texto voltamos a ser crianças e enxergamos
de maneira clara, como o mundo funciona sob a ótica delas.
Depois de visitar e conversar com seus vizinhos,
Coraline como toda criança fica entediada e parte para uma exploração em seu
mundo novo: o apartamento de seus pais e fica curiosa ao se deparar com uma
porta tapada por uma parede de tijolos. No outro dia, como toda boa exploradora,
Coraline consegue a chave e dá de cara com um mundo diferente. O mundo é uma
réplica de sua casa, com os mesmos vizinhos, os pais, os animais, mas com tudo
do avesso. É aqui que entendemos que não estamos em um livro de fantasia, e sim
de terror.
Neil Gaiman resolveu que Coraline não deveria enfrentar
fantasmas horríveis, monstros sem cabeça ou zumbis toscos. O inimigo de
Coraline é um medo mais palatável e antigo, que eu deixo ao seu critério
descobrir e nominar. Para vencer um ser antigo e poderoso, Coraline torna-se um
Ulisses que precisa lutar contra possibilidades e impossibilidades e assim voltar
ao seu mundo normal e cheio de pessoas que passam a vida sem perceber o quanto
perdem ao ignorar a fantasia. Parece comum? Com Neil Gaiman jamais!
A heroína Coraline nos faz querer voltar a observar o
mundo de maneira mais simples, mas jamais simplista. “Coraline” é, com suas
poucas páginas, um dos livros mais maravilhosos que já li, pois ao lado de “O mundo
de Sophia”, abriu meus olhos para questões mais amplas: realidade, fantasia,
cotidiano, horror e mistério. E você? Quem é sua heroína da atualidade?

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