Misturando presente e passado com maestria, e inserindo metáforas
cirurgicamente, King conduz esta história de maneira incrível.
Uma garotinha de sete anos de idade foge junto com o pai pela
movimentada cidade de Nova York. Andrew McGee com seus trinta e quatro anos é
um pai que corre desesperadamente para salvar a única sobrevivente de sua
pequena, modesta e pacata família. A mulher, Vicky, foi morta pouco tempo antes
e Charlie, sua linda filha, escapou por pouco de um sequestro magistralmente
orquestrado pelos algozes de Vicky. O que seria isso? Um filme super atual do
Liam Neeson? Não. Uma ficção de suspense eletrizante escrito na década de 1980 pelo
mago Stephen King, o livro A Incendiária.
A vida dura de universitário de Andrew McGee é virada ao avesso
quando recebe de um amigo que sabe de sua precária situação financeira o aviso
de que o governo dos Estados Unidos está pagando US$200,00 para quem for
voluntário para experimentar uma droga alucinógena. Metade de um grupo receberia
uma injeção do “Lote Seis” e a outra metade um placebo. Apesar de inquieto por
saber que o experimento é conduzido em uma universidade pelo temido e infame grupo
conhecido como “A oficina”, Andy aceita o dinheiro e ao chegar ao local
encontra sua futura esposa Vicky. Ele se apaixona “de cara”, mas demora um
tempo até conquistar o coração de Vicky. O que os une? As bizarras
consequências de terem sido contemplados com as injeções de uma poderosíssima
droga.
As consequências, como eu já citei vão além de uma mui bem
descrita viagem comparada ao uso de ácidos alucinógenos que tanto sucesso
fizeram nos loucos anos 1960. Agora unidos pela traumática experiência Andy e
Vicky receberam poderes. Andy pode “impulsionar”, ou seja, convencer através do
poder de sugestão pessoas a fazer, ver ou sentir algo que eles ou mais tarde o
próprio Andy deseja. Vicky pode ligar aparelhos, fechar portas sem estar perto.
As coisas seguiam relativamente “normais” na vida do casal, que precavido,
sempre soube que um dia pagariam muito mais caro que os US$200,00 que recebera.
Agora eles têm Charlene McGee, a Charlie, nossa protagonista.
Quando Charlie nasceu, a vida a dois que começou com algumas dificuldades,
tornou-se um verdadeiro caos. Apesar de abençoados com uma linda garotinha, chamada
Charlie, Andy e Vicky percebem que ela, assim como eles é especial. Charlie
consegue incendiar coisas E pessoas,
além de outros talentos menores. O fogo sempre esteve presente na vida da
garotinha, desde a mais tenra idade. Então, um episódio envolvendo um urso faz
com que Andy tenha plena consciência do que sua filha pode fazer. É preciso
fazer com que ela entenda. Em um gesto de desespero, ele lança mão de uma medida
bastante enérgica para que Charlie entenda que fazer fogo para machucar alguém
ou destruir alguma coisa é errado. É mau. Esta passagem é bastante emblemática
e vai praticamente ditar a vida e as dificuldades de Andy e claro, Charlie no
futuro.
O casal sabe que a Oficina está de olho neles, sabem que “O grande
irmão” de Orwell não é uma ficção, para eles é uma realidade. Esta realidade os
atinge em cheio no dia em que Charlie é sequestrada por fazer algo que estava
fora do “roteiro” programado para o dia da garota. Então correm para por as mãos
em alguém que já consideravam sua propriedade. Charlie é salva pelo talento do
pai, que precisa agir mesmo devastado pela perda da esposa.
Então uma corrida eletrizante Andy e Charles correm para não cair
nas mãos da Oficina, nesse caminho encontram todo tipo de gente, as boas e as
más e King faz com que cada personagem tenha um significado. Especialmente Irv
Manders, o fazendeiro que os ajuda em um momento crítico, ainda que isso tenha
um custo bastante alto e renda páginas e mais páginas que levam o leitor a
tirar o fôlego diante da capacidade da garota em lidar com o fogo. Algumas
pessoas, como Manders, simplesmente entendem o real significado de empatia e sabem
que ninguém não têm culpa de suas características. Você precisa aceitar do jeito
que são e amá-las do mesmo jeito.
Apesar de todo esforço e dedicação, Charlie e Andy são apanhados
pela Oficina graças á um agente bastante especial. John Rainbird é como um
bicho papão surgido dos piores pesadelos de adultos e crianças. Louco, sádico,
frio e calculista. Rainbird sabe como intimidar qualquer um, até mesmo o
perigoso capitão da Oficina. Assim, ele inicia um jogo de perseguição que faz
com que Charlie caia em sua teia.
Confinados em gaiolas douradas, Charlie e Andy são separados e
precisam lidar com o que para eles é um fato consumado: jamais voltarão a se
ver e Andy sabe que seu fim está próximo. Mas o amor entre pai e filha, a confiança
de que seu papel é dar a vida por Charlie fazem com que Andy tenha um papel
importantíssimo na libertação da filha. E que libertação! As estruturas do
sistema são abaladas por uma simples garotinha de oito anos. O que me
impressionou foi a relação destrutiva entre Charlie e Rainbird, o assassino persegue
um significado para a morte e a garotinha precisa preencher uma lacuna
emocional deixada pela súbita ausência do pai. São momentos memoráveis para quem
quer entender o poder da sugestão e da proximidade de pessoas tóxicas na vida
de alguém, especialmente alguém tão jovem.
A Incendiária tem um final impressionante! Justamente por deixar
o espectador imaginando o que teria acontecido com a garotinha. Só que depois
de todo esse processo, apesar de ter apenas oito anos, Charlie já não é mais
apenas uma garotinha. Ela amadureceu, graças às perdas irreparáveis e depois de
observar de perto o alcance da bondade e maldade humanas. Ela precisa contar
sua história, e que escolha madura ela faz!
Mais um livro especial, super recomendável aos leitores vorazes
de Stephen King seja por seu trabalho no terror ou na ficção. Afinal de contas,
todos não ouvimos falar de histórias mirabolantes assim? E todos não conhecemos
algum Rainbird? Leia A Incendiária e prepare-se para enfrentar a dura realidade
e seus medos. Boa Leitura!


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