É um velho clichê dizer que “nos menores frascos, estão os
melhores perfumes”. Mas com o livro de Ana Paula Maia, Enterre Seus Mortos, o
clichê cai por terra e entra a realidade nua e muito crua. Á primeira vista o
leitor pode pensar tratar-se de uma história absolutamente comum, sobre o
cotidiano de um homem em uma terra desolada, isolada e marcada por tudo, menos
pelo “perfume” da vida. Engana-se.
Demorei a “destrinchar” a obra de Ana Paula Maia, pequena em
número de páginas (133), mas grandiosa em quantidade de metáforas, em detalhes,
em cotidiano e em vida. Apesar de abordar o dia a dia de um homem que trabalha
justamente com a morte – Edgar Wilson – encontramos no livro um personagem que
não se acomoda com seu papel na vida. Edgar Wilson, está sempre a contemplar os
detalhes à sua volta, e é através dele que enxergamos muito além de um lugar
desolado, tomado pela morte, personagens tomados pela culpa, pela indiferença e
de maneira impressionante pela insistência no renascimento.
O herói da trama – Edgar Wilson – é um personagem retraído,
acostumado e admirador do silêncio, por isso, espanta e deixa maravilhado o
leitor ao externar em seus pensamentos e falas uma eloquência simples e interessante
e porque não dizer, muitas vezes inquietante. Acostumado a recolher animais
mortos da beira da estrada, a “fazer seu trabalho” e nada mais. Nos intriga
quando descobre um corpo apodrecendo na floresta, e ao contrário do que
pensávamos, ele não se permite ignorar a tragédia. Contempla a morte e resolve,
com a ajuda de Tomás – um padre excomungado – outro personagem interessante, “costurado”
maravilhosamente na trama, dar um fim digno aquela figura.
Então entra a burocracia, que persegue das primeiras às últimas
páginas os passos dos “justiceiros” Edgar Wilson e Tomás. Um livro que rasga e
põe para fora os monstros que devoram o nosso país. Esta é a obra de Ana Paula Maia.
De tirar o fôlego.
Em uma metáfora “escarnecedora”, vemos que os animais mortos na
estrada têm um fim “digno”, enquanto as pessoas encontradas mortas na trama: um
homem e uma mulher, bem como uma criança à beira da morte devem esperar. Esperar
por uma ambulância de outra cidade que não vem, por um carro do IML (Instituto
Médico Legal) que está quebrado e NÃO virá. Esperar, esperar e esperar. E isso
revolta Edgar, pois para ele: “... aquela mulher valia tanto quanto um abutre e
tinha o direito de ser recolhida como o resto dos animais mortos”.
Na luta por encontrar um fim para tanta indiferença, burocracia,
descaso, corrupção e maldade, Edgar Wilson e Tomás ainda precisam enfrentar
vários monstros para poder dar um fim digno às pessoas que estão sob sua
guarda. Mas são vencidos pelo cansaço e o máximo que conseguem é encontrar um
lugar onde podem “apodrecer em paz”.
Uma obra instigante, inquietante, crua e que com
certeza vale a pena ser lida.

0 Comentário(s)