"Poderíamos dizer que, no dia de criar a América, o pulso do Senhor tremeu um pouquinho."
Então Galeano com a destreza típica, coloca nos versos todo o preconceito, destruição e falta de empatia que os europeus trouxeram para a América junto com suas embarcações, as caricaturas que falavam mais sobre quem desenhava que sobre o objeto de desenho, do assombro ao encontrar mulheres americanas que não eram propriedades de seus maridos. “ Na América encontraram um mundo de cabeça para baixo. Elas tinham opniões e bens próprios, o direito ao divórcio e ao voto nas decisões da comunidade”.
De forma didática e sem meios termos fala sobre drogas, tráfico, da carnificina indígena, a memória dos escravos e do perigo comunista que ameaçava a liberdade por volta de 1959, sobre ditadores e suas ditaduras. Sem perder a fina linha que unem os acontecimentos históricos dos acontecimentos da alma, Galeano versa dos males humanos aos sentimentos que atingem a epiderme como uma chuva forte.
Contando das andanças por aí, Galeano faz denúncias de tudo que está à vista, do racismo encoberto já que o dinheiro do negro vale mesmo que o do branco, do capitalismo selvagem que fez um centro comercial em chamas fechar as portas para que ninguém saísse sem pagar, das condições de trabalho dos trabalhadores invisíveis.
Vale a pena morrer por tudo aquilo que, sem existir, não vale a pena viver."
O último livro de Galeano reúne em tom de despedida os adeuses e encontros, as memórias e as histórias. Encerra de forma poética e condena o leitor a morrer de saudade, dos contos e das palavras cuidadosas colocadas em cada verso.

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